A conversão de suprimentos como instrumento de capitalização das sociedades por quotas

O Plano Comercial é uma rubrica Caiado Guerreiro, com a participação da sócia Joana Gomes dos Santos e do advogado estagiário Sérgio Frazão Baptista, dedicada a questões de Direito Comercial e Societário. Nesta edição abordamos a conversão de suprimentos como instrumento de capitalização das sociedades por quotas.
Artigos 15/01/2026

Estrutura financeira e subcapitalização das sociedades por quotas

A estrutura financeira das sociedades por quotas continua a revelar, com frequência, uma forte dependência de capitais alheios, em detrimento do capital próprio. Esta realidade, amplamente presente no tecido empresarial português – dominado por pequenas e médias empresas – traduz-se, as mais das vezes, em situações de subcapitalização, nas quais a sociedade não dispõe de uma base financeira suficientemente robusta para suportar os riscos inerentes à atividade económica que prossegue.

A liberdade de estipulação do capital social, aliada à responsabilidade limitada dos sócios, contribuiu para a proliferação de sociedades com capital social reduzido, frequentemente insuficiente para absorver perdas ou enfrentar períodos de instabilidade económica. Neste contexto, o financiamento da sociedade tende a ser assegurado, em larga medida, por capitais alheios, incluindo crédito bancário e financiamentos concedidos pelos próprios sócios.

Os suprimentos como instrumento de financiamento societário

Entre os instrumentos de financiamento utilizados pelos sócios, destacam-se os suprimentos. O contrato de suprimento constitui uma figura típica do direito societário português, amplamente utilizada na prática, permitindo aos sócios dotar a sociedade de meios financeiros com carácter de permanência, ainda que reconhecidos contabilisticamente no passivo.

Os suprimentos oferecem vantagens evidentes tanto para a sociedade como para os sócios. Para a sociedade, permitem assegurar liquidez em momentos críticos, muitas vezes em circunstâncias em que o acesso ao financiamento externo é limitado ou excessivamente oneroso. Para os sócios, possibilitam a remuneração do capital investido através do pagamento de juros, sem alteração da estrutura de participações sociais nem agravamento do risco associado à responsabilidade limitada.

Riscos associados a uma estrutura financeira excessivamente endividada

Todavia, a utilização excessiva deste tipo de financiamento não está isenta de riscos. Uma estrutura financeira assente, de um modo excessivo, em capitais alheios fragiliza a autonomia financeira da sociedade, compromete os rácios de solvabilidade e pode dificultar o acesso a novo crédito. Além disso, em situações de crise, a prevalência do endividamento aumenta a probabilidade de incumprimento perante credores e agrava a exposição da sociedade a cenários de insolvência.

A conversão de suprimentos em capital social

É neste quadro que assume particular relevância a possibilidade de conversão de suprimentos em capital social, enquanto instrumento de reforço dos capitais próprios. A conversão de suprimentos consiste, essencialmente, numa operação de aumento de capital social mediante a entrada de créditos detidos pelos sócios sobre a sociedade. Por efeito desta operação, o crédito extingue-se por confusão e é substituído por uma participação no capital social.

Impacto económico e contabilístico da conversão de suprimentos

Do ponto de vista económico e contabilístico, a conversão de suprimentos permite transformar dívida em capital próprio, reduzindo o passivo e reforçando os capitais próprios da sociedade e traduzindo uma melhoria imediata da imagem financeira da empresa perante credores, instituições financeiras e demais stakeholders, contribuindo, por sua vez, para o aumento da credibilidade e da capacidade de financiamento futuro.

A conversão de suprimentos como instrumento estratégico de capitalização

A conversão de suprimentos apresenta-se, assim, como uma solução particularmente adequada para sociedades que, embora viáveis do ponto de vista económico, se encontram excessivamente endividadas e carecem de reforço dos capitais próprios. Ao permitir alinhar a estrutura financeira da sociedade com as exigências do mercado e com as boas práticas de governança societária, este instrumento assume-se como uma opção estratégica relevante. A sua utilização ponderada pode desempenhar, assim, um papel decisivo na correção de situações de subcapitalização, reforçando a solidez financeira das sociedades por quotas e promovendo uma estrutura de capital mais equilibrada e adequada à prossecução do objeto social.

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O conteúdo desta informação não constitui aconselhamento jurídico e não deve ser invocado nesse sentido. Aconselhamento específico deve ser procurado sobre as circunstâncias concretas do caso. Se tiver alguma dúvida sobre uma questão de direito Português, não hesite em contactar-nos.

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  • Bancário e Financeiro
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